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Glossário em Medicina da Reprodução
A utilização de diferentes definições na área da Procriação Medicamente Assistida (PMA) torna difícil uniformizar e comparar os procedimentos em vários países e regiões. O “International Committee for Monitoring Assisted Reproductive Technology (ICMART)” – entidade responsável pela recolha e distribuição dos dados de PMA a nivel mundial, publicou o 1º glossário em 2006 (Zegers-Hochschild, 2006, Fertil Steril;Zegers-Hochschild, 2006, Hum Reprod.). Esse glossário resultou de discussões dos participantes num encontro internacional sobre “Medical, Ethical and Social Aspects of Assisted Reproduction” Organizado pela OMS em 2001 (ICMART, The ICMART glossary,Report of a WHO meeting, 2002).
Em Dezembro de 2008, a OMS em associação com o ICMART, a “Low Cost IVF Foundation” (LCIVFF) e a “International Federation of Fertility Societies “(IFFS), organizou um encontro internacional sobre “Assisted Reproductive Technologies: Common Terminology and Management in Low-Resource Settings”. Os membros do ICMART e da OMS, em conjunto com 72 profissionais (clínicos, embriologistas, epidemiologistas e outros), numa reunião na Sede da OMS em Genebra, Suíça, de 1-5 de Dezembro de 2008, foram responsáveis pelo consenso na revisão do glossário previamente existente. Para essa reunião foram previamente estabelecidos 3 grupos de trabalho. Cada grupo foi responsável por rever o glossário existente e por recomendar novas terminologias representando as áreas clínica, laboratorial e de avaliação dos resultados. Os profissionais que coordenaram cada uma destas áreas foram por ordem alfabética:
Clínica: David Adamson, Thomas D’Hooghe, Osamu Ishihara, Fernando Zegers-Hochschild.
Laboratorial: Trevor Cooper, Outi Hovatta, Arne Sunde, Alan Trounson.
Resultados: Maryse Bonduelle, Jacques de Mouzon, Orvar Finnström, Hassan Sallam.
Independentemente de eventuais discordâncias pontuais, a SPMR, através do seu Conselho Técnico, procedeu à tradução do glossário com o objectivo de difundir e generalizar o uso destas definições, conceitos e terminologia, de forma a facilitar a comunicação na área da Procriação Medicamente Assistida.
Glossário
Aborto espontâneo: perda espontânea de uma gravidez clínica que ocorre antes das 20 semanas completas (ou 18 semanas pós fertilização) ou se a idade gestacional for desconhecida, a perda de embrião/feto com menos de 400 gramas.
Aborto espontâneo recorrente: perda espontânea de duas ou mais gravidezes clínicas.
Aborto induzido: a interrupção deliberada de uma gravidez clínica, antes das 20 semanas completas de idade gestacional (18 semanas após fertilização) ou, se a idade gestacional fôr desconhecida, da evolução de um embrião/feto com menos de 400 gramas.
Aborto retido: aborto clínico em que o(s) embrião(ões)/feto(s) se encontram sem vitalidade mas não é/são expulso(s) espontaneamente do útero.
Anomalias congénitas: todas as anomalias genéticas, funcionais ou estruturais, diagnosticadas em abortos ou recém-nascidos.
Baixo peso à nascença: Peso à nascença inferior a 2 500 gramas.
Blastocisto: embrião, 5 ou 6 dias após fertilização, com um botão embrionário interno, uma camada externa de trofoectoderme e uma cavidade com liquido denominada blastocélio.
Ciclo cancelado: ciclo de PMA no qual a estimulação ovárica e sua monitorização foram realizados mas não levaram a aspiração folicular ou, no caso de descongelamento de embriões, à sua transferência.
Ciclo de congelamento/descongelamento de ovócitos: procedimento de PMA no qual a monitorização do ciclo é realizada com a intenção fertilizar ovócitos descongelados e realizar a transferência de embriões.
Ciclo de doação ovocitária: ciclo no qual os ovócitos são colhidos de uma dadora para aplicação clínica ou investigação.
Ciclo de transferência de embriões criopreservados (TEC): Procedimento de PMA no qual é realizada monitorização de ciclo com o objectivo de transferir um ou mais embriôes congelados/descongelados
Nota: Um ciclo de TEC é iniciado quando é administrada medicação específica ou iniciada monitorização do ciclo com a intenção de tratar.
Ciclo de transferência embrionária (TE): ciclo de PMA no qual um ou mais embriões são introduzidos no útero ou na trompa de Falópio.
Ciclo com recepção de embriões: ciclo de PMA no qual a mulher recebe zigoto(s) ou embrião(ões) de dador(es).
Ciclo com recepção de esperma : ciclo de PMA no qual a mulher recebe espermatozóides de um dador que não é o seu parceiro.
Ciclo com recepção de ovócitos: ciclo de PMA no qual a mulher recebe ovocitos de dadora.
Ciclo FIV natural: ciclo FIV no qual um ou mais ovócitos são colhidos a partir dos ovários durante um ciclo menstrual espontâneo, sem a utilização de qualquer fármaco.
Ciclo iniciado: ciclo de PMA no qual a mulher recebe medicação especifica para estimulação ovárica, ou monitorização no caso dos ciclos naturais, com a intenção de tratar, independentemente de ser ou não realizada a aspiração folicular.
Ciclo natural modificado: procedimento de FIV no qual um ou mais ovócitos são colhidos dos ovários durante um ciclo menstrual espontâneo. São administrados fármacos com o único propósito de bloquear o pico espontâneo da LH e/ou induzir a maturação ovocitária final.
Cirurgia reprodutiva: procedimentos cirúrgicos realizados para diagnosticar, conservar, corrigir e/ou melhorar a função reprodutora.
Concepção medicamente assistida (MAC): reprodução resultante de indução de ovulação, estimulação ovárica controlada, desencadeamento de ovulação, técnicas de PMA e/ou inseminação intra-uterina, intra-cervical e/ou intra-vaginal com esperma do marido/parceiro ou de dador.
Criopreservação: congelamento ou vitrificação e armazenamento de gâmetas, pré-zigotos, embriões ou tecido gonádico (ovárico ou testicular).
Diagnóstico genético pré-implantatório: análise de corpos polares, blastómeros ou trofo-ectoderme, zigotos ou embriões, para fazer a detecção de alterações genéticas específicas e/ou cromossómicas.
Doação embrionária: transferência de um ou mais embriões resultantes de gâmetas (espermatozóides e ovócitos) que não são originários da receptora nem do seu parceiro.
Eclosão Assistida: procedimento in vitro no qual a zona pelúcida de um embrião é fragilizada ou perfurada por métodos químicos, mecânicos ou laser, para ajudar a extrusão do blastócisto do interior da zona pelúcida.
Eclosão: processo pelo qual um embrião no estadio de blastocisto se separa da zona pelúcida.
Embrião: o produto da divisão do zigoto até ao final do período embrionário, oito semanas após a fertilização (esta definição não inclui estruturas produzidas por partenogénese ou por transferência nuclear em células somáticas)
Estimulação ovárica controlada (EOC) para ciclos não PMA: tratamento farmacológico, em que os ovários são estimulados para ovular mais do que um ovócito.
Estimulação ovárica controlada (EOC) para PMA: tratamento farmacológico, no qual os ovários são estimulados para induzir o desenvolvimento de vários folículos de modo a, serem obitos múltiplos ovócitos por aspiração ecoguiada.
Estimulação ovárica ligeira para FIV: procedimento no qual os ovários são estimulados com gonadotrofinas e/ou outros fármacos, com a intenção de limitar o número de ovócitos obtidos a menos de sete.
Extremo baixo peso à nascença: peso à nascença menor que 1000g
Fertilização: penetração de um ovócito pelo espermatozóide e combinação dos seus materiais genéticos resultando na formação do zigoto.
Fertilização in vitro (FIV): procedimento de PMA que envolve a fertilização extra-corporal.
Feto: o produto de fertilização, desde o final do desenvolvimento embrionário, às 8 semanas completas após a fertilização, até ao terminar a gravidez.
Gravidez bioquímica (aborto espontâneo pré-clínico): gravidez diagnosticada apenas pela detecção sérica ou urinária de HCG e que não chega ao estádio de gravidez clínica.
Gravidez clínica: gravidez diagnosticada por visualização ecográfica de um ou mais sacos gestacionais ou sinais clínicos definitivos de gravidez. Inclui gravidez ectópica. Nota: Múltiplos sacos gestacionais contam como uma gravidez clínica
Gravidez clínica com batimentos cardíacos: gravidez diagnosticada por documentação clínica ou ecográfica de pelo menos um embrião com batimentos cardíacos. Inclui gravidez ectópica.
Gravidez ectópica : gravidez com implantação fora da cavidade uterina.
Gravidez múltipla de três ou mais fetos: gravidez com 3 ou mais fetos ou recém nascidos
Gravidez/parto múltiplo: gravidez/parto com mais de um feto/ recém-nascido
Idade Gestacional: idade de um embrião ou feto calculada adicionando 2 semanas (14 dias) ao número de semanas completas após a fertilização.
Nota: para as transferências de embriões criopreservados, a data estimada da fertilização é calculada subtraindo a idade do embrião à data do congelamento da data da transferência no ciclo TEC.
Implantação: adesão e posterior invasão, (habitualmente do endométrio), pelos blastocistos eclodidos, que se inicia 5 a 7 dias após a fertilização.
Indução da ovulação (OI): tratamento farmacológico para mulheres com anovulação ou oligo-ovulação com a intenção de induzir ciclos ovulatórios normais.
Infertilidade (definição clínica): doença da função reprodutora definida pela falha em conseguir gravidez clínica após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares e sem contracepção.
Leve para a idade gestacional: Peso ao nascimento inferior a dois desvios padrão abaixo da média ou inferior ao percentil 10 de acordo com os gráficos locais de crescimento intra-uterino.
MESA: Aspiração de espermatozóides do epididimo por punção microcirúrgica.
MESE: Extração de espermatozóides do epididimo por microcirugia
Micro-injecção intracitoplasmática de espermatozóides (ICSI): procedimento no qual um único espermatozóide é injectado no citoplasma do ovócito.
Micro-manipulação: tecnologia que permite que sejam efectuados procedimentos micro-operativos nos espermatozóides, ovócitos, zigotos ou embriões.
Micro-TESE: Extração de Espermatozóides Testiculares por micro-cirurgia
Mortalidade perinatal: morte de feto ou de recém-nascido que ocorre tardiamente na gravidez (após as 20 semanas completas de idade gestacional), durante o nascimento e até aos 7 dias de vida.
Morte fetal in utero (“stillbirth”): morte antes da expulsão, ou extracção a partir da mãe de feto após as 20 semanas completas de gravidez. A morte do feto é indicada pela ausência de respiração, batimentos cardíacos, pulsação do cordão umbilical ou movimentos dos músculos voluntários, após a separação da mãe.
Morte neonatal: morte de um nado vivo nos 28 dias que se seguem ao nascimento.
Morte neonatal precoce: morte de um nado vivo, no período de 7 dias após o nascimento.
Muito baixo peso à nascença: peso ao nascimento inferior a 1500 gramas.
Parto: Expulsão ou extracção de um ou mais fetos da mãe, após as 20 semanas de idade gestacional.
Parto de nado-vivo: Expulsão ou extracção completa do produto de fertilização independentemente da duração da gravidez, o qual, após a separação da mãe, respira ou mostra qualquer outra evidência de vida como batimentos cardíacos, pulsação do cordão umbilical ou movimentos dos músculos voluntários. Isto, independentemente do cordão umbilical ter sido cortado ou a placenta ainda estar fixa.
Parto de termo: parto que ocorre entre as 37semanas completas e as 42 semanas completas de idade gestacional.
Parto pós-termo: parto que ocorre após as 42 semanas completas de gestação.
Parto pré-termo: parto de nado-vivo (ou -morto) após as 20, mas antes das 37 semanas completas de idade gestacional.
Parto pré-termo muito longe do termo: parto de nado vivo ou morto que ocorre após as 20 semanas, mas antes de completadas as 28 semanas de gravidez.
Periodo neonatal : intervalo que tempo que começa no nascimento e acaba aos 28 dias após o parto.
PESA: Aspiração percutânea de espermatozóides do epidídimo.
Portadora gestacional (maternidade de substituição): mulher que suporta uma gravidez com a intenção entregar o recém-nascido ao(s) pai(s). Os gâmetas podem ser originários dos pais e/ou de terceiros.
Procriação medicamente assistida: todos os tratamentos ou procedimentos que incluem a manipulação in vitro de gâmetas (espermatozóides ou ovócitos) humanos ou embriões com a finalidade de se conseguir uma gravidez.
Isto inclui, mas não está limitado a, Fertilização in vitro e transferência de embriões, transferência intratubária de gâmetas, zigotos e embriões, criopreservação de gâmetas e embriões, doação de ovocitos e embriões, maternidade de substituição. Não fica assim incluída a inseminação artificial usando esperma do parceiro ou de dador.
Rastreio genético pré-implantatório: análise de corpos polares, blastómeros ou trofo-ectoderme, zigotos ou embriões, para fazer a detecção de aneuploidias, mutações e/ou rearranjos do DNA.
Redução embrionária/fetal: procedimento para reduzir o número de embriões ou fetos viáveis numa gravidez múltipla.
Saco gestacional: estrutura cheia de fluido associada com gravidez precoce, que pode estar localizada dentro ou fora do útero (no caso de gravidez ectópica).
Saco(s) gestacionais ou embriões desaparecidos (“vanishing”): desaparecimento espontâneo de um ou mais sacos gestacionais ou embriões em gravidez evolutiva documentada por ecografia.
Síndrome de hiperestimulação ovárica (SHO): resposta sistémica exagerada à estimulação ovárica, caracterizada por um largo espectro de manifestações clínicas e laboratoriais. É classificado como ligeiro, moderado ou grave de acordo com o grau de distensão abdominal, de aumento dos ovários e de complicações metabólicas, respiratórias e hemodinâmicas.
Síndrome de hiperestimulação ovárica grave: é definido pela necessidade de hospitalização (ver SHO)
Taxa cumulativa de partos com pelo menos um nado vivo: número estimado de partos com pelo menos um nado-vivo resultantes de um ciclo iniciado, de um ciclo com aspiração folicular, ou de um ciclo com embriões transferidos, incluindo ciclos com embriões transferidos a fresco e subsequente(s) ciclo(s) de TEC. Esta taxa é usada quando não foi utilizado o número total de embriões a fresco e/ou congelados resultantes de um ciclo de PMA.
Nota: O parto de feto único, de gémeos ou de múltiplos em maior número é registado como um parto..
Taxa de gravidez clínica: número de gravidezes clínicas expressas por 100 ciclos, iniciados, com punção ou com transferência de embriões.
Nota: Quando é indicada a taxa de gravidez clínica, deve ser especificado o denominador (ciclos iniciados, ciclos com aspiração folicular, ou ciclos com transferência de embriões).
Taxa de implantação: número de sacos gestacionais observados, dividido pelo número de embriões transferidos.
Taxa de partos: número de partos expresso por 100 ciclos iniciados, ciclos com aspiração folicular ou ciclos com transferência de embriões. Quando é indicada a taxa de partos, deve ser especificado o denominador (ciclos iniciados, ciclos com punção, ou ciclos com transferência de embriões). Inclui partos de 1 ou mais nados vivos e de fetos mortos.
Nota: O parto de feto único, de gémeos ou de múltiplos em maior número é registado como um parto.
Taxa de partos após PMA, por paciente: número de partos com pelo menos um nado vivo por paciente após um número especificado de tratamentos
Nota: O parto de feto único, de gémeos ou de múltiplos em maior número é registado como um parto.
Taxa de partos de nados-vivos: número de partos que resultaram em pelo menos um nado-vivo, expresso por 100 ciclos iniciados, ciclos com aspiração folicular ou ciclos com transferência de embriões. Quando é indicada a taxa de partos deve ser especificado o denominador (ciclos iniciados, ciclos com aspiração folicular, ou ciclos com transferência de embriões).
Taxa total de partos com pelo menos um nado vivo: número total estimado de partos com pelo menos um nado-vivo resultantes de um ciclo iniciado, de um ciclo com aspiração folicular, ou de um ciclo com embriões transferidos, incluindo ciclos com embriões transferidos a fresco e subsequente(s) ciclo(s) de TEC. Esta taxa é usada quando foram já usados todos os embriões resultantes de um determinado ciclo de PMA.
Nota: O parto de feto único, de gémeos ou de múltiplos em maior número é registado como um parto.
TESA: técnica cirúrgica de colheita de espermatozóides por aspiração testicular
TESE: Técnica cirúrgica de extracção de tecido testicular, por biópsia aberta, para obtenção de espermatozóides.
Torção ovárica: rotação parcial ou completa do pedículo vascular ovárico que causa obstrução ao fluxo sanguíneo, levando potencialmente à necrose do tecido ovárico.
Transferência electiva de embrião: transferência de apenas um ou mais embriões seleccionados a partir de um grupo de embriões disponíveis.
Transferência embrionária (TE): procedimento pelo qual um ou mais embriões são introduzidos no útero ou na trompa de Falópio.
Transferência intra-tubária de gâmetas (GIFT): um procedimento pelo qual ambos os gâmetas (ovócitos e espermatozoides) são transferidos para as trompas de Falópio.
Transferência intra-tubária de zigotos (ZIFT): procedimento de PMA no qual o(s) zigoto(s) é(são) transferidos para a trompa de Falópio.
Vitrificação: método de criopreservação ultrarápido que previne a formação de cristais de gelo dentro da suspensão e no interior das células, que são convertidas num sólido semelhante ao vidro.
Zigoto: celula diplóide que resulta da fertilização de um ovócito por um espermatozóide, que subsequentemente se divide para originar um embrião.
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