Perguntas frequentes

1. A INFERTILIDADE CONJUGAL

Define-se com a “incapacidade de um casal conceber ou levar a bom termo uma gravidez, depois de pelo menos um ano de relacionamento sexual regular sem qualquer protecção”. É uma situação bastante mais frequente do que se pensa habitualmente, pois cerca de 1 em cada 10 casais tem dificuldade em conseguir o filho que deseja. O tratamento da infertilidade é uma história de sucesso. Até há 25 anos só uma pequena proporção de casais recebia tratamento realmente eficaz.
O uso de hormonas para a estimulação dos ovários, a possibilidade de monitorizar a resposta com ecografia, o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas sofisticadas, o aparecimento da FIV, e, mais recentemente, da microinjecção intracitoplasmática de espermatozóides, a possibilidade de rastreio dos embriões em certas condições, tudo contribuiu para que as expectativas que um casal infértil tem hoje sejam incomparavelmente melhores do que antes.
Há que ter sempre presente que a melhor ajuda para o casal que não conseguiu ainda procriar reside no diagnóstico correcto da causa da infertilidade e na escolha da alternativa terapêutica mais adequada. Há uma tendência crescente para considerar as técnicas mais sofisticadas (FIV e ICSI) como uma espécie de panaceia, um tratamento extremamente eficaz e indicado em todas as situações.
No entanto, tal não é o caso e a selecção dos casais para quem estas alternativas são adequadas deve ser feita tentando evitar a criação de expectativas excessivas e irrealistas, fonte de frustrações e sofrimentos psicológicos adicionais.
Se tem um problema de infertilidade deverá começar por procurar o seu médico assistente, que poderá iniciar os estudos mais simples e, quando considerar adequado, recomendará um centro com consultas de infertilidade onde poderá completar a investigação das causas da situação e efectuar o tratamento mais adequado. Em situações mais complexas, estará indicada a orientação para Unidades que disponham de técnicas de Procriação Medicamente Assistida (FIV e ICSI).

2. POSSÍVEIS CAUSAS DE INFERTILIDADE

Problemas com o homem

Diminuição do número de espermatozóides
Espermatozóides com mobilidade reduzida
Espermatozóides com configuração anormal
Ausência de espermatozóides


 

Problemas com a mulher

Falência da ovulação
Obstrução das trompas
Doença do útero
Muco cervical desfavorável
Endometriose
Aborto de repetição
Infertilidade inexplicada

Causas da infertilidade

Em aproximadamente 20-30% das situações, a causa de infertilidade é um problema do homem - há poucos espermatozóides ou eles não têm as características adequadas. Noutros 30-40% dos casos, o problema é da mulher (o mais frequente é haver perturbações da ovulação, mas a obstrução das trompas é também uma situação relativamente comum). Em cerce de 30% dos casais inférteis ambos os cônjuges contribuem, em maior ou menor grau para o problema. Em 5% a 10% dos casais não se detecta qualquer razão aparente para a infertilidade, que então se designa por infertilidade inexplicada ou de causa desconhecida.

 

3. PROBLEMAS COM A MULHER

As situações mais comuns são:

Falência da ovulação

Pelo menos 20-25% dos casos de infertilidade feminina são causados por falência da ovulação, tendo como sintoma menstruações irregulares ou mesmo ausentes.
A ausência de ovulação pode estar associada a peso excessivo ou emagrecimento excessivo.
Há numerosas causas para a falência da ovulação, incluindo secreção reduzida de hormonas pela hipófise (uma glândula na base do cérebro), existência de ovários poliquísticos e falência de ovários. Geralmente o tratamento com medicamentos é muito eficaz, 60-70% de casais a conseguir a desejada gravidez. Há casos especiais em que poderá ser adequada uma actuação cirúrgica sobre os ovários, ou recorrer a FIV.
Se há insuficiência dos ovários, não existe nenhuma possibilidade de tratamento. Nalguns países, os casais com este tipo de problema poderão recorrer a FIV com ovócitos de dadora.


Obstrução das trompas

É uma causa responsável por cerca de 30% dos casos de infertilidade feminina. Raramente há sintomas que indiquem a obstrução tubária, embora por vezes exista no passado uma história sugestiva de infecções dos órgãos pélvicos. Por vezes as trompas não estão completamente obstruídas, mas estão fixadas ou aderentes, em posições que impedem a sua função de captação do óvulo libertado pelo ovário. A obstrução das trompas, parcial ou completa é habitualmente causada por infecções que podem ser associadas a bactérias muito diversas.

Em situações (pouco frequentes) existe a possibilidade de tratamento cirúrgico.
Se não resulta gravidez ou se as trompas estão muito lesadas, há indicação para FIV.


Doenças do útero

Em cerca de 5% das mulheres, a infertilidade está associada a doenças do útero. Fibromiomas uterinos, anomalias congénitas na configuração do útero e alterações na sua cavidade interna, podem ser consideradas causa de infertilidade. Pode não haver quaisquer queixas associadas a estas doenças ou, pelo contrário, haver menstruações abundantes e dolorosas. Se há lesões importantes da cavidade uterina, as menstruações podem ser reduzidas ou inexistentes. A terapêutica é cirúrgica, usando a técnica mais adequada para cada situação.


Muco cervical desfavorável

Por vezes, o muco produzido pelo útero nos dias que antecedem a ovulação é muito espesso e não do tipo "clara de ovo" como é normal. Os espermatozóides não conseguem então entrar no útero. Em casos raros, o muco contém anticorpos que imobilizam os espermatozóides.
O tratamento é, habitualmente, inseminação intra-uterina ou, em casos mais graves, FIV.


Endometriose

Por vezes, o tecido que cobre o interior do útero desenvolve -se também externamente e implanta-se na cavidade abdominal, sobretudo na pelve e nos ovários.
Esta circunstância pode associar-se a menstruações especialmente dolorosas e, se o processo cicatricial é muito extenso, pode ser causa de infertilidade.
O tratamento é cirúrgico, embora ocasionalmente possa haver ajuda importante de certos medicamentos na redução das queixas.
A FIV poderá ser uma alternativa eficaz para conseguir a gravidez.


Abortos de repetição

Algumas mulheres não têm propriamente dificuldades em engravidar, mas abortam sistematicamente. Esta situação, infelizmente não muito rara, poderá ser devida a alterações hormonais ou a malformações congénitas do útero. Em grande número dos casos o que há são defeitos nos embriões e isto não tem tratamento, embora haja algumas técnicas promissoras em investigação.

4. PROBLEMAS COM O HOMEM

As situações mais comuns são:

Diminuição do número de espermatozóides

Em condições normais um homem produz mais de 100 milhões de espermatozóides em cada ejaculação. Embora seja necessário apenas um espermatozóide para fertilizar o óvulo (a célula feminina), a “viagem” até atingir o óvulo é tão extraordinariamente difícil que a esmagadora maioria dos espermatozóides se perde ou morre no trajecto. Por isso, se um homem produz menos de 20 milhões de espermatozóides no ejaculado, a sua fertilidade está significativamente reduzida e a probabilidade de que ocorra uma gravidez é bastante menor. As razões porque tantos homens têm um número diminuído de espermatozóides não são conhecidas, mas poderão estar implicados factores genéticos, hormonais e ambientais.
Chama-se oligospermia (ou oligozoospermia) à diminuição acentuada dos espermatozóides. O tratamento com medicamentos (injecções e/ou comprimidos) só excepcionalmente tem algum efeito, a não ser que exista um problema hormonal subjacente. As infecções podem ser tratadas com antibióticos. Em situações raras poderá haver actuação cirúrgica útil. Outros métodos de tratamento são as diversas formas de inseminação – inseminação intra-uterina, fertilização in vitro (FIV) ou microinjecção intracitoplasmática (ICSI na sigla anglo-saxónica). Na FIV os espermatozóides são colocados em contacto comos óvulos, em meio de cultura laboratorial, dando-se a junção das células por actuação dos seus mecanismos naturais.
Na ICSI, um espermatozóide é injectado directamente no interior do óvulo, sob visão microscópica. Estas técnicas têm resultados gratificantes, mas são complexas e dispendiosas, devendo ser um recurso seleccionado para situações bem definidas.
Vale a pena recordar que, excepto em situações graves, a maioria dos homens com oligospermia pode fecundar, dando origem a uma gravidez mesmo sem tratamento. A probabilidade de isso acontecer, é muito menor do que se o esperma fosse normal e o tempo necessário para obter a gravidez poderá ser muito longo.


Espermatozóides com mobilidade reduzida

É uma situação também muito comum. A baixa mobilidade está muitas vezes associada à diminuição da concentração de espermatozóides. No esperma normal, pelo menos 50% dos espermatozóides devem mover-se de forma adequada. Abaixo desse limite diz-se que o homem tem astenospermia ou astenozoospermia. A mobilidade reduzida é por si mais importante do que uma redução moderada da quantidade de espermatozóides. As alternativas terapêuticas são as descritas atrás.


Espermatozóides com configuração anormal

Considera-se normal um esperma que tem mais de 15% de espermatozóides morfologicamente normais. Se essa percentagem é menor que 15% diz-se existir teratospermia ou teratozoospermia. Os espermatozóides anormais não dão origem a crianças com malformações! Sucede que esses espermatozóides não são fecundantes, sendo esta uma causa importante de infertilidade.
Em situações de teratospermia grave só a microinjecção intracitoplasmática (ICSI) oferece possibilidades de êxito significativas.


Ausência de espermatozóides

Nalguns homens, o ejaculado não contém espermatozóides. Essa situação designa-se por azoospermia e significa que os testículos não produzem espermatozóides ou então que estão obstruídos os canis que conduzem os espermatozóides para o exterior dos testículos. Em situações raras é possível restaurar a permeabilidade desses canais recorrendo a técnicas cirúrgicas com utilização de microscópios especiais. Se essa alternativa não for adequada é possível tentar recolher os espermatozóides directamente do testículo e utiliza-los para efectuar microinjecção - ICSI.
Se não há produção de espermatozóides pelos testículos (situação que se consegue identificar através da biopsia do testículo) e não se trata de uma das raras situações de causa hormonal, não existem formas de corrigir a situação. Há alguma investigação promissora relativamente à possibilidade de fazer microinjecção utilizando células precursoras dos espermatozóides, mas a eficácia é ainda muito reduzida.
Como opção possível nesses casos há que ter em conta a adopção ou, quando tal é exequível, a inseminação com esperma de dador.

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